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Estudo inédito traça os perfis de jovens em contextos de vulnerabilização e aponta lacunas na garantia ao ensino e direitos básicos

Estudos/Pesquisas

Material realizado pelo Itaú Educação e Trabalho, Fundação Roberto Marinho e Iede, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), analisa políticas públicas existentes para esses perfis e faz recomendações

O Itaú Educação e Trabalho, a Fundação Roberto Marinho e o Iede, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), lançaram no dia 26 de março, o estudo “Juventudes Minorizadas: análises de educação e trabalho para incidência em políticas públicas”, em evento em Brasília (DF).

Pela primeira vez um estudo traça um panorama de 13 grupos de juventudes brasileiras que enfrentam barreiras históricas no acesso à educação, ao trabalho e a direitos básicos. O material é composto por 14 artigos elaborados por especialistas de referência nacional e relatos dos jovens. Os 13 grupos mapeados são: juventudes negras, em situação de pobreza, indígenas, quilombolas, rurais, estudantes de escolas públicas, pessoas com deficiência, LGBTQIA+, jovens mães, mulheres nas áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), adolescentes em medidas socioeducativas, adolescentes em situação de trabalho infantil e jovens refugiados. 

Colocar a desigualdade social no centro do debate é fundamental. Educação e trabalho são direitos básicos das juventudes, além de serem estratégicos para o país, ao garantir que esses jovens tenham acesso a uma educação de qualidade e possam ocupar postos de trabalho relevantes. O que nos motivou a elaborar esse estudo foi justamente compreender as desigualdades que atravessam os diferentes perfis das juventudes. Precisamos olhar para as especificidades para que o Estado brasileiro consiga formular respostas mais efetivas,” afirma Rosalina Soares, superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho.

A partir desse diagnóstico, o estudo também aponta caminhos para o enfrentamento das desigualdades que impactam diferentes juventudes no país. Entre as principais recomendações levantadas está o fortalecimento de políticas públicas intersetoriais voltadas a esses grupos. “O estudo reforça a urgência da qualificação e da expansão de políticas educacionais como estratégia fundamental para enfrentar essas desigualdades”, aponta Cacau Lopes da Silva, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Implementação do Itaú Educação e Trabalho.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2025, do IBGE, o Brasil tem mais de 46,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, ou seja, quase um quarto da população. Entre as juventudes minorizadas predominam trajetórias marcadas por atraso ou interrupção escolar, baixos níveis de aprendizagem, informalidade e acesso restrito ao trabalho digno. A publicação também avalia políticas públicas de mitigação de desigualdades existentes e aponta lacunas na garantia de proteção, inclusão e oportunidades para esses jovens. Dessa forma, traça um painel que possibilita reconhecer, ao mesmo tempo, características e desafios estruturais, que atravessam os 13 perfis, e aspectos específicos de cada um deles.

É fundamental reforçar a pluralidade das juventudes no Brasil. São muitas identidades, particularidades e desafios que precisam ser observados. Também é importante destacar que essas desigualdades não são pontuais, mas estruturais e reflexo de um processo histórico de exclusão,” diz Lívia Felix de Mattos, Gerente de Relacionamento com Setor Privado do 1Mio, da Unicef. “Para enfrentar esse cenário, são necessárias políticas públicas articuladas. E não apenas novas iniciativas, também é preciso olhar para aquelas que já existem há décadas e que podem ser mais bem aproveitadas em prol desses jovens que estão acessando a escola e o mundo do trabalho”, destaca.

Raça e condição socioeconômica são fatores centrais para compreender as desigualdades enfrentadas pelas juventudes brasileiras. Segundo a PNAD Contínua 2024, 11,9 milhões jovens vivem em situação de pobreza. Entre os jovens em extrema pobreza, 74,9% são negros, enquanto mulheres negras representam 40% da juventude pobre do país. O estudo ainda destaca que esses marcadores sociais se traduzem em obstáculos concretos no cotidiano, como dificuldade de acesso à internet, longos deslocamentos para estudar ou trabalhar, necessidade de conciliar estudo e trabalho, e inserção precoce em ocupações precárias.

Juventudes indígenas, quilombolas e rurais

“Tive muita dificuldade para ingressar na universidade por problemas na inscrição. A parte financeira pesa muito, principalmente para jovens que precisam sair da comunidade. Acho que isso faz muitos desistirem”. A fala é de uma jovem quilombola de 22 anos, moradora de Moju, no Pará, e evidencia um desafio recorrente entre jovens de comunidades tradicionais: a necessidade de deixar o território para acessar oportunidades de educação e trabalho.

O Brasil tem cerca de 443 mil jovens indígenas, o equivalente a 1% da população jovem, segundo o Censo do IBGE. Mais da metade desse grupo (60%) vive fora das terras indígenas. Apesar da ampliação do acesso à educação nas últimas décadas, persistem desigualdades importantes. A taxa de analfabetismo entre jovens indígenas é três vezes maior do que entre não indígenas, e apenas 42% dos jovens de 18 a 29 anos têm o ensino médio completo, frente a 54% da juventude em geral.

O estudo também alerta para a exposição dessa população a múltiplas formas de violência. Entre jovens indígenas, a taxa de suicídio chega a ser oito vezes maior do que entre jovens brancos e negros.  Entre os quilombolas, o estudo destaca avanços na educação, como o crescimento de 57% nas matrículas do ensino médio em escolas quilombolas entre 2014 e 2024. Ainda assim, segundo o Censo Escolar, cerca de 30% dos estudantes apresentam atraso escolar, acima da média nacional de 17,8%. A saída do território também marca a trajetória das juventudes quilombolas: 87% vivem fora de suas comunidades.

No caso das juventudes rurais, o levantamento mostra indicadores mais críticos de exclusão escolar e precarização do trabalho. Enquanto 33% dos jovens do campo estão fora da escola sem concluir a educação básica, nas áreas urbanas o índice é de 16,5%. A informalidade também é maior: atinge 69% das juventudes rurais, contra 41% entre jovens urbanos.

Marcadores sociais e a educação pública

O estudo reforça o papel da escola pública como espaço de proteção, aprendizagem e construção de projetos de vida. No entanto, aponta que diferentes grupos ainda enfrentam barreiras para permanecer na escola e acessar oportunidades educacionais. A violência enfrentada por jovens negros e de comunidades periféricas, o bullying vivenciado por LGBTQIA+, a falta de acessibilidade para PCDs e a falta de representatividade feminina são algumas das dificuldades apontadas pelo material e destacadas nas falas dos jovens entrevistados.

Estudantes da rede pública, majoritariamente pretos, pardos e de baixa renda, concentram os piores indicadores de aprendizagem, maiores taxas de insucesso escolar e elevada distorção idade-série em comparação aos alunos da rede privada. Para os pesquisadores, essas condições comprometem as perspectivas de futuro dessas juventudes, diante da relação direta entre escolaridade, inclusão produtiva e renda.

A educação pública deve ser entendida como um espaço de acolhimento e pertencimento. Os dados mostram que diferentes intersecções acabam colocando muitos jovens à margem, sem acesso pleno ao direito garantido pela Constituição a uma escola democrática e de qualidade,” afirma Cacau Lopes da Silva, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Implementação do Itaú Educação e Trabalho. “Nesse contexto, investir em Educação Profissional e Tecnológica é essencial para ampliar oportunidades, desenvolver competências alinhadas ao mundo do trabalho e permitir que essas juventudes construam novos projetos de vida e perspectivas de mobilidade social.  Mas essa oferta também precisa estar conectada às novas economias, às expectativas dos jovens e a uma formação humana e integral,” aponta.

Trajetórias mais vulneráveis

“Fui esforçado, mas fiz escolhas erradas, fiquei privado de liberdade. Depois de sair, decidi que não ia virar estatística. Hoje continuo limpo, trabalhando e aprendendo. Já sofri discriminação. Olha para mim: o cabelo, a cor... A primeira impressão é o julgamento”.

O relato de um jovem de 23 anos, egresso do sistema socioeducativo em Brasília (DF), ilustra as trajetórias marcadas por exclusões sucessivas vividas por adolescentes em medidas socioeducativas, jovens submetidos ao trabalho infantil e refugiados.

Mais da metade dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa (57,7%) ainda está no ensino fundamental, embora a maioria já tenha idade para cursar o ensino médio. Segundo os pesquisadores, o déficit educacional compromete não apenas a inserção profissional, mas também o acesso a direitos básicos e a políticas públicas que poderiam beneficiá-los.

No caso das juventudes refugiadas, o levantamento aponta que a escassez de dados dificulta a formulação de políticas públicas específicas. Entre os principais obstáculos estão interrupções frequentes das trajetórias escolares, barreiras linguísticas e dificuldade de validação de documentos. Segundo dados da ACNUR (2023), 55% das pessoas refugiadas no Brasil estavam desempregadas.

Estamos felizes em fazer parte dessa iniciativa porque sabemos o quanto ainda precisamos avançar no debate sobre equidade. Esse esforço de identificar e dar visibilidade às diferentes juventudes, marcadas por desigualdades em diversas frentes, é muito importante,” afirma Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede. “Documentar essas desigualdades, qualificar os dados e ouvir as juventudes, especialmente as minorizadas, é fundamental para que possamos avançar de forma estrutural rumo à ampliação de oportunidades e à justiça social.”.

Como conclusão, o estudo indica que os problemas são muitos e se perpetuam ao longo das décadas, mas as juventudes minorizadas devem ter atenção da sociedade e do poder público urgente, com políticas públicas que contemplem seus direitos e ofereçam mais oportunidades de inserção coletiva e mobilidade social.